terça-feira, 22 de março de 2011

Indignação. Indigna. Indigna, inação.

Olá querid@s. Quanto tempo sem escrever. Esse faltoso de sempre, esse amigo tão ingrato, esse item em falta de mercado. Tempo, tempo, tempo... Se eu fosse poeta ia por esse caminho. Acho até que dava caldo. Mas não sou. Infelizmente. Então vou direto ao ponto.

E minha contribuição de hoje fala disso mesmo – Tempo e ponto. Explico melhor: Como em casa temos apenas um carro, temos tentado sair sempre no mesmo horário para os compromissos pra que eu sempre tenha carona (já que em casa, sou eu quem não dirige). Ontem (22/03/2011) excepcionalmente não tivemos como conciliar o horário de saída. Como moro perto da Praça Tamandaré e tinha que ir próximo ao Shopping Flamboyant pensei: Tenho muito tempo. Ainda são 18:10 e meu compromisso é só 19:30. Vou a pé até a praça cívica (5 minutos), pego o ônibus Alto da Glória (uns 15 minutos) e chego com folga. Certo? Bom, ainda bem que eu sempre soube que não era bom em matemática. Digo, eu achava que era ruim em matemática, mas na verdade sou péssimo: Cheguei ao meu compromisso faltando cinco minutos para o mesmo! Isso queridos leitores. A menos que sejam tão ruins como eu de matemática (o que seria impossível!) já entenderam muito bem: Pra fazer menos de cinco quilômetros de ônibus dentro de nossa linda cidade demorei “apenas” exatas uma hora e quinze minutos.

- Como isso é possível ? – Você pergunta. E eu conto a seguir minha saga:

Quero começar dizendo que serei um pouco repetitivo. A Nani já falou dias atrás do caos em que se encontram nossas ruas com motos em cima de calçadas e outros absurdos cada vez mais esdrúxulos. Mas faço questão de contar que saí à pé e tive que enfrentar entre o bosque dos Buritis e a Praça Cívica os maiores absurdos que já vi no que convencionamos a chamar de trânsito nessa cidade. As motos (contei 12 entre o bosque e a praça!) simplesmente subiam nas calçadas e passavam por mim em alta velocidade. Em ALTA VELOCIDADE entenderam? Fosse eu uma mulher grávida puxando uma criança pelo braço e momentos depois seria uma mulher sem filho nenhum – Com certeza perderia uma criança atropelada e a outra de susto! Sinal não tem mais o significado dos tempos de minha escola quando a professora se esforçava pra nos fazer entender que:

  • Verde – Siga
  • Amarelo – Atenção
  • Vermelho – PARE

Não queridos amigos. Vamos nos “antenar”. Estamos nos novos tempos. Esse é um novo lugar. Hoje os sinais têm novos significados, mas não posso ajudá-los. Ainda não os entendi complemente. Uma coisa é certa: Todos querem dizer SIGA. Ainda que isso queira dizer que você tem o direito de passar por cima do outro que está em sua frente. Se ele for um pedestre você só não tem esse direito, como ainda ganha um bônus por infernizá-lo, acelerar quando ele está exercendo seu direito passando pela faixa, não deixar espaço para que ele possa andar e bônus duplo se conseguir matar algum desses seres desprezíveis não possuidores de carros.

Pelo menos foi assim que me senti ontem. Eu era um alvo pra ser atingido. P.T Saudações.

As pessoas falavam mal, buzinavam, aceleravam e se o sinal ficava vermelho, fingiam estar olhando pra outro lado pra poder avançar sem ver a minha cara de contrariedade. Ah, lembrei de uma ótima: Eu passando pela Avenida 85, seguindo TODAS as regras apresentadas pelas placas e sinalizadores. Sabem o que é TODAS? Isso aí. Eu só passava na faixa, mas só quando ficava verde pra mim. Mesmo que o trânsito ficasse tranqüilo e desse pra passar correndo, eu não o fiz em momento nenhum. Eu esperei pacientemente por minha vez e quando ficou verde pra mim adivinhem: Os carros, motos, caminhões, pick-ups e afins, continuavam avançando como se nada estivesse acontecendo. Eu avancei pela faixa pensando: MEU DIREITO! Vocês vão parar sim! Um motorista brecou de uma vez, colocou a cara pra fora e gritou: Não pode esperar não OTÁRIO? Não tá vendo que eu tô com pressa?

Entenderam? EU sou o OTÁRIO e ELE o que tem pressa. Sempre assim não é? Tão típico: O outro que espere que aguarde que abra mão do seu direito. Eu estou cansado. Dane-se se o outro também está cansado e tem o mesmo direito de chegar a sua casa (ou, no meu caso, no próximo trabalho do dia). Eu tinha que ter ficado quieto quando o semáforo avisou que eu podia passar. Afinal não existem regras não é mesmo? Não vi um único carro da AMT. Nenhuma motinha. NADA. Estávamos ali eu e os outros pedestres à deriva. Tendo que ter seus direitos cerceados e ainda sofrendo retaliação. E praqueles vagabundos que estavam dentro dos carros estava tudo bem. Afinal o cara me xinga, ofende meus direitos e depois sai em disparada. Quem vai fazer algo? Nem motorizado eu estava pra seguir e pedir respeito. Eu estava ali sem ser assistido por quem deveria garantir meus direitos. O trânsito está caótico? Levam-se horas para chegar a algum lugar de carro? Mas e daí? O pedestre tem culpa? As pessoas que não podem comprar um carro ou dois ou três são obrigadas a “liberar” a rua pra que eu passe? É isso?

Bem... Chegando ao ponto eu fiquei por 45 minutos no ponto esperando um ônibus da linha Alto da Glória passar. E no ponto ficava olhando à minha volta: Quanta desigualdade! Quanta falta de respeito! Quanta indignidade! Que vergonha eu senti. Por saber que muitas vezes estou dentro do carro. Que já fiquei torcendo pra que a pessoa que estava no volante acelerasse um pouquinho mais pra pegar uma rabeira com o carro da frente que passou. Que vergonha!

Acho que devemos deixar mais nossos carros em casa e pegar alguns ônibus. Hoje vou fazer isso de novo. Faz-nos bem. Estar do outro lado que o outro, sentir como sente o outro. É disso que precisamos agora. Mais do que nunca pra respeitar o outro, temos que sair de nossos carros, de nossas vidas pseudo-medio-classistas, de nossos valores-vazios apreendidos durante tantos verões e carnavais e relembrar que respeito é bom e cabe em todo lugar: Onde eu estou e onde está o outro.

Hoje eu discutia com uma amiga que me disse que estava impressionada pela retaliação que um querido nosso está passando porque se tornou evangélico. Entrou pra uma igreja com a esposa, se batizou e tudo. Ela me disse:

- Wellington, não é de diversidade que as pessoas falam? Não é disso? Diversidade não quer dizer respeitar apenas dois ou três grupos de pessoas não. Diversidade quer dizer aceitar as diferenças. Em todos os sentidos. É respeito. Não é? Eu nem preciso concordar com o outro. Mas tenho que respeitar. Não é disso que se trata?

Sim amiga. É disso que se trata.

Mas vou deixar esse tema pra outro post. Só citei aqui porque acho que a reflexão vale. Porque no fundo ela está coberta de razão:

Respeito – É disso que se trata!

P.S: Ah, o título. Não o citei não é? É que quando eu estava no ponto ontem entre a vergonha e a raiva eu só pensava em uma música que, acho, é do Skank que diz assim:

Indignação. Indigna!

Indigna, inação.

Acho que isso diz tudo.

Wellington Dias

Ator, diretor, historiador e técnico de cultura do SESC Cidadania.

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